Lei em Campo: PSG na final com Flamengo expõe dilema de integridade no futebol global

Esse tipo de debate está longe de ser novo. O futebol internacional já conviveu com situações semelhantes sem que isso gerasse, ao menos publicamente, incômodo relevante ou discussão mais profunda nas instâncias decisórias. Relações comerciais estruturais entre clubes, patrocinadores e entidades organizadoras se tornaram parte do “normal” do sistema. O problema é que, quando tudo vira normal, a exceção deixa de ser percebida como risco.
Aqui entra um ponto central do Direito Desportivo contemporâneo: integridade não se resume à ausência de ilegalidade formal. Ela envolve transparência, equidade competitiva e gestão adequada de riscos. Na ausência de regras claras e globais sobre conflitos de interesse, especialmente em temas como escolha de sedes, formatos de competição e vínculos econômicos, tudo acaba delegado ao campo do “bom senso”. E, quando ninguém proíbe, ninguém pune. O resultado é previsível: decisões passam a ser vistas com desconfiança, mesmo quando tecnicamente defensáveis.
A própria FIFA reconhece a centralidade da integridade em seus documentos de governança. Seus regulamentos exigem atuação “fiel, leal e independente” de dirigentes e estabelecem parâmetros formais para prevenção de conflitos de interesse. O problema não está no discurso normativo, mas na distância entre as diretrizes e sua aplicação prática, sobretudo em contextos marcados por forte peso econômico e geopolítico.
O esporte até tenta se autorregular. Alguns países restringiram patrocínios de apostas; a Premier League anunciou a proibição desse tipo de exposição a partir de 2026. São avanços relevantes, mas que precisam continuar. É hora de enfrentar o problema estrutural dos conflitos de interesse em competições internacionais, onde interesses comerciais, políticos e esportivos frequentemente se entrelaçam sem filtros claros.
A Copa Intercontinental, disputada no Catar, expõe exatamente essa lacuna. Não se trata de afirmar favorecimento. Trata-se de reconhecer que, no esporte, a percepção de conflito também importa. Confiança é ativo central. Quando ela se fragiliza, perde-se mais do que um jogo ou um título: perde-se legitimidade.
Integridade, compliance e governança existem justamente para isso — prevenir conflitos, criar transparência e proteger o valor institucional do futebol. Sem mecanismos claros, independentes e globais, a dúvida vira regra. E o que o esporte tem de mais valioso – sua credibilidade – fica permanentemente exposto.




